A discussão sobre maricultura sustentável costuma ficar presa em certificados e relatórios técnicos. Nesta reportagem, fomos atrás de experiências em que pescadores, maricultores e gestores públicos sentaram à mesma mesa para decidir onde cultivar, quanto cultivar e como dividir os benefícios.

Visitamos três municípios — um no Sul, um no Nordeste e um no Sudeste — onde arranjos de manejo participativo transformaram a relação entre comunidade e ambiente costeiro.

Ilha das Flores, SC: limites acordados

Na pequena comunidade de pescadores de Ilha das Flores, a expansão desordenada de canteiros de ostra gerou conflito com a navegação local. Em 2023, moradores e produtores criaram um mapa comunitário que delimitou zonas de cultivo, corredores de passagem e áreas de preservação de manguezal.

O acordo não tem força de lei, mas é respeitado porque foi construído em assembleias abertas. "Quem descumpre, perde o apoio do vizinho — e aqui isso pesa", diz Zé Manoel, pescador e conselheiro do grupo.

Manguezal e área de cultivo

Barra de São Miguel, AL: ciência e tradição

No Lago Mundaú, pesquisadores da universidade local trabalham com maricultores para monitorar qualidade da água e densidade de cultivo. O projeto financia análises mensais e devolve os resultados em reuniões comunitárias — em linguagem acessível, sem jargão.

Quando os indicadores apontam saturação, a comunidade reduz temporariamente a colheita. "É contraintuitivo para quem precisa vender", reconhece a bióloga Fernanda Lima, coordenadora do projeto. "Mas evitou dois colapsos sanitários nos últimos três anos."

Sustentável, para nós, é poder colher amanhã o que plantamos hoje.

Paraty, RJ: turismo e cultivo

Em Paraty, a maricultura convive com o turismo de passeio de escuna. Um roteiro gastronômico inclui visita a canteiros de ostra com degustação guiada — renda extra para produtores e educação ambiental para visitantes.

O modelo gerou renda, mas também pressão: barcos de turismo às vezes ancora em áreas de cultivo. A solução encontrada foi sinalização flutuante e um aplicativo simples que mostra aos operadores onde não ancorar.

O que os três casos têm em comum

Nenhum dos projetos depende exclusivamente de financiamento externo permanente. Todos investem em governança local — regras claras, transparência e espaço para quem discorda. Isso não elimina conflitos, mas cria mecanismos para resolvê-los sem recorrer apenas ao judiciário.

A maricultura brasileira ainda enfrenta desafios estruturais: licenciamento lento, infraestrutura de transporte precária e mercado concentrado. Mas essas experiências mostram que sustentabilidade, no cotidiano das comunidades, começa com diálogo — não com slogans.

Em Ilha das Flores e em Barra de São Miguel, produtores entrevistados disseram que a maior lição dos últimos anos foi aprender a dizer "não" a expansões que não cabiam no mapa acordado. Essa disciplina coletiva — rara em mercados aquecidos — explica parte da resiliência observada nos três territórios visitados.

Para a Costa Cultivada, acompanhar esses arranjos é prioridade editorial. Porque o futuro do cultivo marinho no Brasil passa, inevitavelmente, por quem mora na beira da água.

Publicado em 8 jun 2026 · Atualizado em 8 jun 2026