O sol ainda não esquentou quando a caminhonete de Dona Maria desce a estrada de terra que liga o povoado de Porto de Galinhas ao estuário do Rio Maracaípe. No banco de trás, caixas plásticas vazias balançam a cada buraco. Ela é presidente da Cooperativa dos Maricultores do Litoral Sul — um grupo de 28 famílias que cultiva mexilhão-azul (Perna perna) em esteiras flutuantes.

O Nordeste responde por uma fatia significativa da produção nacional de moluscos cultivados. Em Pernambuco e Alagoas, o mexilhão é tanto alimento de mesa quanto fonte de renda para comunidades que, há duas décadas, migraram da pesca artesanal para o cultivo em suspensão.

Esteiras de cultivo no estuário

A reorganização da cooperativa

Até 2020, cada família vendia por conta própria — muitas vezes para atravessadores que pagavam pouco e exigiam volumes irregulares. A cooperativa mudou isso. Hoje, a Coopermar-Litoral Sul centraliza a colheita, padroniza a embalagem e negocia com redes de supermercado da região metropolitana do Recife.

"Antes, eu não sabia quanto ia receber no fim do mês", conta Seu Antônio, maricultor há 15 anos. "Agora tem preço combinado e data de pagamento."

O modelo não é perfeito. Há fila de espera para entrar na cooperativa, e os critérios de qualidade eliminaram produtores que não conseguiram adequar a higiene do processamento. Mas a renda média das famílias associadas subiu, segundo levantamento interno divulgado em assembleia no ano passado.

Logística e frio

O gargalo mais citado nas entrevistas foi o transporte refrigerado. Mexilhão vivo precisa chegar ao ponto de venda em poucas horas. A cooperativa investiu em uma câmara fria compartilhada — financiada em parte por um edital estadual de fortalecimento da economia solidária — e contratou um motorista fixo para as entregas diárias.

Sem frio, o mexilhão morre no caminho. Com frio, a gente compete com qualquer produtor do Sul.

Em Maceió, uma iniciativa semelhante tomou forma no Lago Mundaú, onde comunidades ribeirinhas cultivam mexilhão em balsas de bambu — técnica tradicional que ganhou apoio técnico da universidade local. O desafio ali é outro: a proximidade com áreas urbanas exige monitoramento constante da qualidade da água.

Mercado e preço

O consumo de mexilhão no Nordeste cresceu com a popularização de feiras gastronômicas e botecos de frutos do mar. Em Recife, o quilo do mexilhão cultivado variou entre R$ 18 e R$ 26 no primeiro semestre de 2026, dependendo do tamanho e da época.

Analistas do setor apontam que a demanda interna ainda é subexplorada. Parte da produção poderia abastecer o Sudeste — onde o mexilhão costuma vir de outras regiões — se a logística de longa distância melhorar. Por enquanto, a prioridade das cooperativas é consolidar o mercado regional.

O que vem pela frente

Dona Maria quer certificação de origem para o produto da cooperativa. "O cliente quer saber de onde veio", ela explica. "Se a gente conseguir selo, vende melhor."

Enquanto isso, as esteiras continuam no estuário — boiando, filtrando, crescendo. A maré não espera, e a cooperativa também não.

Publicado em 10 jun 2026 · Atualizado em 10 jun 2026